16 de agosto de 2012

Antes morrer do que pecar


Trechos da vida do Jovem Domingos Sávio

Proponho-me relatar neste capítulo alguns feitos que apenas se acreditaria se a veracidade e o caráter de quem os afirma não excluísse todo gênero de dúvida. Incluo a mesma relação que o capelão de Murialdo teve a atenção de dirigir-me por escrito sobre este aluno seu muito querido.
Disse assim:
“Nos primeiros dias que cheguei a estes arredores, via com frequência um menino de cinco anos de idade que vinha à igreja em companhia de sua mãe. A seriedade de seu semblante, a compostura de seu comportamento e sua atitude devota chamaram a atenção minha e de todos.
Se ao chegar à igreja a encontrasse fechada, se produzia um espetáculo realmente esplêndido. Em vez de correr de um lado para outro e alvoroçar como fazem os meninos de sua idade, aproximava-se do umbral da porta, e ali, posto de joelhos, com a cabeça inclinada e juntas as mãos sobre o peito, rezava fervorosamente até que abriam a igreja. Tenham em conta que, às vezes, o terreno estava embarreado, ou que chovia ou nevava; mas a ele nada importava, e se colocava igualmente a rezar de joelhos.
Maravilhado e movido de piedosa curiosidade, quis saber quem era aquele menino, e soube que era filho do ferreiro, chamado Carlos Sávio.
Quando me via na rua, começa desde longe a dar sinais de particular alegria, e com semblante verdadeiramente angelical se adiantava respeitosamente a saudar-me. Logo que começou a frequentar a escola, como estava dotado de muito talento e era muito diligente no cumprimento de seus deveres, fez em breve tempo notáveis adiantamentos nos estudos.
Obrigado a tratar com os meninos desobedientes e dissipados, jamais sucedeu que riu com eles; suportava com grande paciência as ofensas dos companheiros e apartava-se discretamente quando presumia que podia se suscitar alguma disputa. Não recordo tê-lo visto jamais tomar parte em jogos perigosos nem causar na classe a mais insignificante desordem; antes bem, convidado por alguns companheiros a ir fazer chacotas das pessoas idosas, a atirar pedras, a roubar fruta ou a causar outros danos no campo, sabia desaprovar delicadamente sua conduta e se negava a tomar parte em tão repreensíveis diversões.
A piedade que havia demonstrado rezando até nos umbrais da porta da igreja não diminuiu com a idade. Aos cinco anos havia já aprendido a ajudar na missa, e fazia com muitíssima devoção. Ia todos os dias à igreja, e se outro queria nela ajudar, a ouvia com a mais edificante compostura. Como, por causa de seus poucos anos, apenas podia trasladar o missal, era gracioso vê-lo aproximar-se do altar, colocar-se de pontas de pés, estender os braços ao máximo que podia e fazer todos os esforços possíveis para chegar ao atril (ambão). O sacerdote ou os assistentes lhe davam o maior prazer do mundo se, em vez de trasladar o missal, aproximassem-no de modo que pudesse ele alcançá-lo; então, gozoso, o levava ao outro lado do altar.
Confessava-se frequentemente, e não bem soube distinguir o pão celestial do pão terreno, foi admitido à santa comunhão, que recebeu com uma devoção verdadeiramente extraordinária. Em vista da obra admirável que a divina graça ia realizando naquela alma inocente, me diziam muitas vezes: ‘Há aqui um menino de grandes esperanças! Queira Deus que cheguem à maturidade tão preciosos frutos!’”
Até aqui o capelão de Murialdo.

Nada faltava a Domingos para que fosse admitido à primeira comunhão. Sabia já de memória o pequeno catecismo, tinha conhecimento suficiente deste augusto sacramento e ardia em desejos em recebê-lo. Somente se opunha a idade, posto que nas aldeias não se admitia, por regra, os meninos à primeira comunhão antes dos doze anos completos. Domingos apenas tinha sete e, além da pouca idade, por seu corpo miúdo ainda parecia mais jovem; de sorte que o padre não se decidia em aceitá-lo. Quis saber também o parecer de outros sacerdotes, e estes, tendo em conta sua precoce inteligência, sua instrução e seus vivos desejos, deixaram de lado todas as dificuldades e o admitiram para receber pela primeira vez o pão dos anjos.
Indizível foi o gozo que inundou seu coração quando lhe disseram esta notícia. Correu à sua casa e a anunciou com alegria a sua mãe. Desde aquele momento passava dias inteiros em oração e na leitura de bons livros; e ficava longos momentos na igreja antes e depois da missa, de modo que parecia que sua alma habitava já com os anjos do céu.
Na véspera do dia assinalado para a comunhão foi à sua mãe e lhe disse:
−Mamãe, amanhã vou fazer minha primeira comunhão; perdoe-me você todos os desgostos que lhe dei no passado; eu lhe prometo portar-me muito bem de hoje em diante, ser aplicado na escola, obediente, dócil e respeitoso a tudo ao que você me mande.
E, dito isto, se colocou a chorar. A mãe, que dele só havia recebido consolos, sentiu-se comovida e, contendo a duras penas as lágrimas, o consolou dizendo-lhe:
−Vá tranqüilo, querido Domingos, pois tudo está perdoado; peça a Deus que te conserve sempre bom e roga também por mim e por teu pai.
Na manhã daquele dia memorável levantou-se muito cedo e, vestido de sua melhor roupa, foi à igreja; porém como a encontrou fechada, se ajoelhou no umbral da porta e se colocou a rezar, segundo seu costume, até que, chegando as outras crianças, abriram a porta. Com a confissão, a preparação e ação de graças, a função durou cinco horas.
Domingos foi o primeiro que entrou na igreja e o último que saio dela. Em todo este tempo não sabia se estava no céu ou na terra. Aquele dia foi sempre memorável para ele, e pode considerar-se como verdadeiro princípio ou, melhor, continuação de uma vida que pode servir de modelo a todo fiel cristão.
Alguns anos depois, falando-me de sua primeira comunhão, se animava ainda seu rosto com a mais viva alegria.
−Ah! – costumava dizer –, foi aquele o dia mais esplêndido e grande de minha vida.
Escreveu em seguida algumas recordações que conservou cuidadosamente em seu devocionário e as lia frequentemente. Vieram depois às minhas mãos, e as incluo aqui com toda a simplicidade da original. Eram do seguinte teor:
Propósitos que eu, Domingos Sávio, fiz no ano 1849 em ocasião de minha primeira comunhão, aos sete anos de idade:
1º Me confessarei muito frequentemente e receberei a sagrada comunhão sempre que o confessor me permita.
2º Quero santificar os dias de festa.
3º Meus amigos serão Jesus e Maria.
4º Antes morrer do que pecar.

Estas lembranças, que repetia frequentemente, foram a norma de seus atos até o fim de sua vida.
Se entre os leitores deste livro se ache algum que não tenha recebido ainda a primeira comunhão, eu o rogaria encarecidamente que se propusesse imitar Domingos Sávio. Recomendo sobretudo aos pais e mães de família e a quantos exercem alguma autoridade sobre a juventude, que dêem maior importância a este ato religioso. Estai persuadidos que a primeira comunhão bem feita põe um sólido fundamento moral para toda a vida. Difícil será encontrar alguma pessoa que, havendo cumprido bem tão solene dever, não tenha levado boa e virtuosa vida.
Pelo contrário, contam-se a milhares os jovens rebeldes que enchem de amargura e desolação seus pais, e, se bem se observa, a raiz do mal está na escassa ou nenhuma preparação com que têm feito sua primeira comunhão. Melhor é deferi-la ou não fazê-la do que fazê-la mau.

São João Bosco

FONTE: Obras Fundamentales de San Juan Bosco

Tradução de Bruno Raphael da Cunha Dobicz

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